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20 maio 2012

AS TRÊS FASES DO PLANO PORTUGUÊS


AS TRÊS FASES DO PLANO PORTUGUÊS (*)     

 

     “ O objectivo principal do inimigo é destruir o nosso Partido, porque em África e em todo o mundo o seu prestigio e o prestigio dos seus principais dirigentes estão no auge.

        Ele está convencido de que a prisão ou a morte do principal dirigente significaria o fim do Partido e da nossa luta.

        Por isso mesmo, o objectivo real dos portugueses na sua tentativa de invasão da Republica da Guiné (Conakry), em 22 de Novembro de 1970, era o assassinato do secretário geral do Partido e a destruição da base na retaguarda da revolução constituída pelo regime de Sékou Touré.

        Numa palavra, destruir o Partido agindo no seu interior.

 

        O plano do inimigo fará-se-á em três fases:

 

            Primeira fase:

   Actualmente, muitos compatriotas abandonam Bissau e outros centros urbanos para se juntarem às nossas fileira. Nesta ocasião, o general Spínola espera poder introduzir agentes (antigos e novos membros do Partido) nas nossas fileiras.

   A sua tarefa: estudar as fraquezas do nosso Partido e tentar provocações apoiando-se no racismo, no tribalismo, opondo os muçulmanos aos não muçulmanos.

           

            Segunda fase:

   1. Criar uma rede clandestina (penetrando, por exemplo, no Partido e nas forças armadas;

   2. Criar uma direcção paralela, se possível com um ou dois dirigentes actuais do Partido (de entre os descontentes);

   3. Desacreditar o secretário geral, para preparar a sua eliminação no quadro do Partido ou, se a necessidade o impuser, pela sua liquidação física;

   4. Preparar nova “ direcção “ clandestina para fazer dela o verdadeiro organismo dirigente do PAIGC;

   5. Paralelamente, lançar uma grande ofensiva para aterrorizar as populações dos territórios libertados.

 

            Terceira fase:

   a. No caso de falhar a segunda fase, tentar um golpe contra a direcção do Partido, fazendo assassinar o seu secretário geral;

   b. Formar uma nova direcção baseada no racismo e opondo guineenses e cabo-verdianos, utilizando o tribalismo e a religião (muçulmanos contra não-muçulmanos);

   c. Entrar em contacto com o governo português. Falsa negociação, autonomia interna, criação de um governo fantoche na Guiné-Bissau que seria designado “Estado da Guiné” e faria parte da comunidade portuguesa;

   e. Postos importantes estão prometidos pelo general Spínola a todos que executaram o plano.

 

           Conclusão – Devemos reforçar a nossa vigilância para desmascarar e eliminar os agentes do inimigo, para defender o Partido e encorajar a luta armada. Assim poderemos frustrar todos os planos criminosos dos colonialista portugueses.

        O inimigo tentou corromper os nossos homens, mas a esmagadora maioria dos responsáveis contactados não aceitou vender-se, comportaram-se como dignos militantes do nosso Partido e contribuíram mesmo para castigar severamente os portugueses que tentavam comprá-los, como foi o caso dos quatro oficiais, próximos colaboradores de Spínola, liquidados no norte do país.”

 

(*) De um documento da autoria de Amílcar Cabral, distribuído em Março de 1972 aos quadros do PAIGC

 



Disposição dos corpos e viaturas

Três Majores e um Alferes

19 janeiro 2011

Data da morte de Amílcar Cabral 20-01-1973

Associação de Estudantes da Guiné-Bissau em Lisboa e Núcleo de Estudantes Africanos da Faculdade de Direito com apoio da Embaixada da Guiné-Bissau em Portugal, vem por este meio informar que no dia 20 de Janeiro de 2011 vai realizar uma Cerimónia em Homenagem a Amílcar Lopes Cabral e Heróis da luta pela libertação da Guiné-Bissau e Cabo-verde.
Programa do Evento
Local de Evento: Faculdade de Direito de Lisboa Sala de Audiências, Hora: das 16:30h às 19:30
Tema: “Homenagem dos Heróis Nacionais da Guiné-Bissau e Cabo-Verde e a Influência do Pensamento de Amílcar Lopes Cabral nos dois Países ”
16:30 Abertura solene da Conferência
Conferencistas
Eng. Domingos Simões Pereira
Secretário Executivo da C.P.L.P
Dr. José Luís Hopffer de Almada
Jurista e Analista politico
Prof. Doutor Julião Sousa
Professor de História e investigador na Universidade de Coimbra
Dr. Rony Moreira
Sociólogo
Prof. Doutor António Duarte da Silva
Professor Universitário e autor dos livros: Independência da RGB, Invenção e Construção da RGB
Prof. Dr. Bernardo Pacheco de Carvalho
Coordenador do CIAT-CD Instituto Superior de Agronomia da Univ. Tecncia de Lisboa
PAIAT - ISA/UTL
Moderador
Jornalista António Lopes Soares -Tony Tcheka
Consultor Internacional em Comunicação e Jornalismo
18:00h Espaço de Debate
18:30 Encerramento
Excelentíssimo Senhor Embaixador da Guiné-Bissau em Portugal
 Dr. Fali Embaló 
Organização: AEGBL e NEA-FDL Com Apoio da Embaixada da Guiné-Bissau em Portugal

(informação facultada por Carlos E. Vinhal)

22 dezembro 2010

O que o colonialismo ignorou e escondeu

   Ao colonialismo, e seus homens de mão, nunca interessou, mesmo em última análise a pacificação da situação.
   Somente um, viria a perceber que perante a degenerescência do governo em Lisboa e o aprofundar das contradições internas da própria ‘máquina militar’, mais o isolamento internacional a que o governo de Lisboa já estava votado, poderia vir a ser o ‘Senhor’ daquela parcela territorial em África. António Spínola.
   Eles (os da altura) e ainda hoje, os reminescentes saudosistas, que não perceberam, não percebem nem perceberão, que seria assim com ou sem 25 Abril.
   Esquecem, ou fingem não conhecer factos, de lutas de libertação em vários locais do Globo, levadas a cabo mesmo contra a chamada maior potência militar do mundo, sendo visiveis hoje, os resultados e consequências.
   Não é por acaso, que chamavam à Guiné Bissau, o ‘Vietnam português’, um território tão pequeno, que causou mais baixas que qualquer outra colónia, em termos relativos, ao exército português.
   Alguns daqueles estagnados saudosistas defendem, que Portugal seguia a moda colonial de outros países europeus. Mas escondem (escamoteiam) que por outro lado o governo de Lisboa não quis, não sabia como, sem perder a face, seguir no minimo, os exemplos de descolonização dos mesmos países.


   Cabe aqui esclarecer, os que entendem que a utilização do francês pelos naturais da Guiné Bissau, era uma afronta ao exercito, (na altura da independência) o seguinte:
   Para além dos dialectos locais, os crioulos, o português, a língua francesa era a utilizada por condicionantes (e naturalmente influencia) de comunicação política com o exterior. Em razão dos países circundantes utilizarem o francês.
   Contudo, Portugal com séculos de colonização, e permanência intensiva durante dez anos, não anulou o analfabetismo, nem um ponto. Mantendo a população na ignorância absoluta.

17 dezembro 2010

Teias de uma Conspiração - Amilcar Cabral



Conspiração contra Cabral


   Como Cabral foi abatido - O verdadeiro cérebro da conspiração
   O papel dos três grupos de conspiração - Os conjurados com Sékou Touré - A traição de Rafael Barbosa, primeiro presidente do PAIGC, em Bissau
   A infiltração inimiga nos serviços de segurança e nas telecomunicações
  Conakry controlada em 30 minutos - Perseguição no mar - A captura dos rebeldes       - O fracasso do putsch
   
  Após o assassinato de Amílcar Cabral  "Afrique-Ásie" foi o único jornal internacional autorizado pelos guinéus a proceder uma investigação no próprio local. Em Conakry, o nosso enviado especial Aquino de Bragança viveu durante três semanas com os dirigentes do PAIGC, aos quais se tinham reunido os comandantes do interior. Seguiu de perto os trabalhos da Comissão de inquérito preliminar durante o qual foram interrogados 465 pessoas, 43 acusados de participação, 9 de cumplicidade, 42 não ilibados de suspeitas.

   A 15 de Janeiro último, Amilcar Cabral, Secretário-Geral do PAIGC, regressa a Conakry, vindo de Accra, onde assistiu a uma reunião do Comité de Libertação da OUA.
   Graças à ajuda fraternal do Partido e do Governo Guinéus, os combatentes do PAIGC dispõem livremente duma base de retaguarda na Guiné, dispondo entre outros na capital, de serviços, residências e facilidades portuárias para a sua flotilha.
   Portanto, ao chegar nesse dia a Conakry, Cabral constata com espanto que uma das barcaças do PAIGC, que deveria ter-se dirigido para a Guiné Bissau com um carregamento de armas para as regiões libertadas, se acha ainda no seu ponto de amarração.

   O Comandante Joaquim Costa oficial da vedeta que deveria rebocá-la é convocado.
   " Porque não executou as directivas do conselho de guerra ?
   - O motor do barco está avariado.
   Apresse-se, insiste Cabral. Os comandantes do interior esperam as armas para o desencadear duma ofensiva decisiva. "

   Mas, de facto, a contagem regressiva já começara.
   Joaquim da Costa faz parte da conspiração. Espera as instruções do seu cúmplice, Inocêncio Kanny, outro comandante de vedeta. Sabe qual será a sua missão
   Com efeito no início de 1973, ano decisivo, segundo os planos dos colonialistas portugueses, todos os peões se encontram no seu devido lugar.
   A PIDE-DGS (serviços secretos portugueses) infiltrava-se por toda a parte, já há vários anos, para contratar agentes guinéus e introduzi-los no movimento de resistência. Aventureiros, prisioneiros enganados, velhos militantes cansados, aborrecidos e descontentes... Claramente, não são em grande número relativamente à totalidade dos combatentes e dos seus quadros. O que é grave é a ascensão de alguns a postos essenciais, por vezes até a responsabilidades importantes. O que é mais grave é que conseguiram enganar a confiança da direcção do Partido e do seu Secretário Geral.

    FARÓIS NA NOITE


   Nessa noite de sábado, 20 de Janeiro, Joaquim Chissano, membro membro do Comité Executivo da FRELIMO, de passagem por Conakry, dá uma conferência na Escola de quadros do PAIGC. Naturalmente esse facto reterá, à noite, grande número de militantes e responsáveis.
   Todavia, Cabral não estará presente. Ele e a sua mulher estão numa recepção na Embaixada da Polónia. Aristides Pereira, seu adjunto, também não estará na conferência. Permaneceu no seu gabinete, onde espera o regresso de Cabral, previsto para as 23 horas.
   É mais ou menos a esta hora que Cabral, acompanhado por sua esposa, Ana Maria, deixa a Embaixada da Polónia ao volante do Volkswagem que conduz habitualmente.
   O militante africano está bastante calmo nessa noite. Os comunicados mais recentes das frentes interiores confirmam que as tropas do PAIGC, conservam a iniciativa dos combatentes.  As recentes modificações introduzidas nas estruturas da direcção do Partido pelo Comité Executivo de Luta, reunido em Boké (Guiné-Conakry), vão permitir dar uma força nova à ofensiva. A última reunião da OUA foi favorável aos combatentes guinéus. E, sobretudo, a Assembleia Popular, recem-eleita nos territórios libertados, vai proclamar a soberania da Guiné. Inúmeros Estados africanos e outros, prometeram um reconhecimento imediato.

   A estrada de Patoma está tranquila e o Volkswagem desliza na noite. A residência é já ali, próxima. Mas, de súbito, o condutor é encadeado pelos faróis dum automóvel. Cabral admira-se e ao reconhecer um jeep do Partido, para o seu carro e sai.
 " Que se passa ?"

   Do veículo militar saem três homens que apontam as sua armas ao Secretário Geral. O que aparentemente dirige a operação é bem conhecido de Cabral. É Inocêncio Kany, um veterano, que foi um dos comandantes da marinha, é certo que teve, mais tarde uns problemas....
 " Segue-nos ", diz Inocêncio Kani.
   Cabral  recusa e chama a guarda que deve vigiar a sua residência.
   Já não há guarda.
   Nabonia, chamado "Batia", membro da guarda pessoal do Secretário Geral, tinha informado os conjurados do programa da noite. Eles sabem que Cabral está sozinho; que Pereira o espera no seu gabinete e que os outros militantes estão retidos na conferência dos Moçambicanos.
   " Entra, repete Inocêncio, senão levamos-te à força. ".
   Um dos agressores avança com uma corda.
   “ Não me levem assim, diz Cabral diz,. . Nunca ninguém pode amarrar-me... E nunca aceitei que outros fossem amarrados... Nós combatemos precisamente para quebrar as cadeias...”
   O medo e a perturbação surgem na face de Kani. Mas é demasiado tarde.
   Por um momento, hesita depois, levanta a arma e dispara, quase à queima-roupa.
   Atingido no fígado, Cabral abate-se na estrada sangrando abundantemente.
   Então Inocêncio Kani desaparece por momentos, certamente para informar os seus cúmplices do desenrolar dos acontecimentos.
   Todavia, da estrada onde a mancha de sangue alastra ergue-se Cabral. O homem não morreu. O chefe está ainda lúcido.
   Dirige-se aos outros dois, imóveis, para uma última tentativa.

     ACABEM COM ELE


   “ Porquê , camaradas ?  Se há divergências, é necessário discutir... O Partido ensinou-nos... “
  - Como ? Ainda falas ? “, resmunga Kani que regressa de súbito.
  Faz um sinal:
  “ Acabem com ele !  Rápido. “
   Uma curta rajada. Cabral tomba, atingido na cabeça. Morto. Ana Maria, aterrorizada e impotente, seguiu toda a cena de dentro do carro onde tinha ficado.
   “Levem-na para a “Montanha”, ordena Kani.
   A “Montanha”, é a prisão do PAIGC. O jeep arranca a toda a velocidade.
   Outras acções se tinham já encetado. Pouco antes das 11 horas, os conjurados tinham surpreendido e aprisionado Aristides Pereira, secretário geral adjunto, que trabalhava no seu gabinete.
   È Mamadou N’Dyaye em pessoa, membro dos serviços de segurança e chefe dos guardas, que aprisiona e amarra.
   E enquanto vários detidos – responsáveis importantes da insurreição – são libertados, Ana Maria e outros dirigentes fieis, como Vasco Cabral e José Araujo, são aprisionados.
   “ Sereis fuzilados às 6 horas da manhã “, dizem-lhes os rebeldes.
   De momento têm muitas coisas a fazer. Tanto mais que o plano começa a falhar.
   Com efeito, as ordens não eram para matar Cabral mas para raptá-lo e transportá-lo para Bissau.
   E os tiros devem ter sido ouvidos algures.
   Inocêncio retoma o caso em mão.
   Aristides Pereira, amarrado, tinha sido metido numa viatura que se dirige para o porto. Todos os veículos do PAIGC estão providos duma placa especial (F F) que lhes permite, nos termos dum acordo com os dirigentes de Conakry, circularem livremente. As barreiras do exército, da polícia e da milícia guineense são, pois, passadas sem dificuldade.
   Inocêncio Kani chega então ao porto e verifica que as suas ordens foram executadas.
   Pereira foi transferido para a vedeta nº4 – comandada por Joaquim Costa – que aparelhou, todas as luzes apagadas, e reboca uma barcaça carregada de armas.
   O assassino de Cabral toma o comando da vedeta nº7 e larga do porto acompanhado pela nº5.  A flotilha fez-se ao largo. Os serviços do porto guinéu conhecem-nos bem e não intervêm.
   Todavia, em terra, os tiros tinham sido ouvidos. O comandante Osvaldo Vieira, membro do Conselho de Guerra, que reside próximo do local, pega na sua arma. Chega também uma enfermeira. Vê o corpo de Cabral. O pulso já não dá sinal.
   “ Está morto “ diz ela.
   Na atrapalhação, recolhem os óculos do dirigente e um papel, uma carta que ele tinha começado a escrever à filha... e notas para uma obra que preparava.
   Só duas horas depois Ana Maria e os seus dois companheiros serão libertados.
   Mas o presidente Ahmed Sékou Touré está corrente da situação desde as 23h e 30m.  Quando um pouco mais tarde, Oscar Oramas, embaixador de Cuba,  telefona ao presidente para lhe dar a noticia do assassinato de Amílcar Cabral, aquele responde-lhe que já está ao corrente.
   Primeiro reflexo:  Sékou Touré ordena à direcção do porto que proíba qualquer partida.  Mas os responsáveis do porto informam que já tinham partido três vedetas do PAIGC.  É dada a ordem de perseguição. Simultaneamente, com uma rapidez exemplar, as forças guineenses bloqueiam a capital.
   À meia-noite Conakry está isolada. O exército entra de prevenção nas fronteiras. A força aérea levanta. São, aliás, os Mig duma patrulha e os radares de vigilância que descobrirão, de madrugada, os navios em fuga, ao largo de Boké.
   Costa, Inocêncio e os seus outros homens são presos.
   “ Onde está Aristides Pereira ?”  perguntam-lhes.
  - Já está algures em região libertada da Guiné-Bissau, respondem os traidores seguros de si.
  As autoridades guineenses não os acreditam, Está presente José Pereira, responsável pala região fronteiriça da Guiné-Bissau que acompanha o governador da região.
   É decidido revistar a barcaça de acompanhamento que está carregada de armas.  Perto do meio-dia, finalmente, Aristides Pereira é encontrado no porão, amarrado, as mãos parcialmente gangrenadas. Este confirma a intenção dos seu raptores de o darem “ de presente “ ao governador português, general Spínola.

      O GOLPE FRUSTADO


   Mas a conspiração tem aspectos múltiplos. Cedo se torna evidente a vastidão dos seus objectivos.
   Regressemos à noite dramática de 20/21 de Janeiro.
   Enquanto, na cidade e no mar, os acontecimentos se desenrolam, um grupo de conspiradores apresenta-se ao presidente Sékou Touré.
   No grupo, nomeadamente, estão Mamadou Touré, chamado “Momo”, e Aristides Barbosa tinham sido libertados nessa mesma noite da prisão onde se encontravam acusados de traição. Seus libertadores, os assassinos de Cabral. João Tomaz tinha sido acusado de comprometimento com os portugueses, condenado a dez anos de trabalhos forçados, foi amnistiado por ocasião do 25º aniversário do Partido. Soares da Gama, em liberdade provisória, estava em instância de julgamento por um caso de corrupção.
   À meia-noite, portanto, o grupo, conduzido pelo condutor Sana Kassama, apresenta-se no escritório de Sékou Touré.
   “Momo” é porta-voz do grupo.
   “Nós viemos para participar ao responsável supremo da Revolução, diz ele, que acabamos de assumir as nossas responsabilidades. Tornava-se necessário eliminar Cabral, matá-lo mesmo se fosse necessário, para salvar o nosso país.”
   “Os militantes de base, os comandantes do interior, designaram-me para isso, acrescenta ele afrontosamente, para assegurar a direcção do PAIGC.”
   Sékou Touré está grave.  A conspiração, monstruosa, apresenta-se-lhe claramente.
   “Não quero ouvir-vos agora”, diz ele. Convoca de urgência Samora Machel, presidente da Frelimo, que se encontrava em Conacry em visita oficial, e os embaixadores amigos da Argélia, M. Zitouni, e de Cuba N. Oscar  Oramas.
   “Momo” insiste:
   “O que se passou nessa noite, era inicialmente para me libertar da prisão.
   - Já vos disse que não vos quero ouvir agora. Esperem – interrompe o Presidente numa voz cortante.
   Os dados estão lançados. Cabral está morto, mas a cidade está isolada, a via marítima bloqueada, os principais conspiradores são detidos uns atrás dos outros. É a hora do ajuste de contas e do balanço. E também da lição que será necessário tirar e dar a África e ao mundo inteiro.
   E é assim que por iniciativa do presidente Sékou Touré, no dia 21 de Janeiro, poucos minutos depois da meia-noite, a comissão de investigação preliminar se reúne em Conacry.
   Reúne os responsáveis pela Frelimo, pelo Partido Democrático da Guiné (PDG),
aos quais se viriam a juntar os embaixadores de Cuba e da Argélia. A comissão
seria mais tarde alargada a outros países.
   Os traidores, desmascarados, vão falar doze horas ininterruptamente.
   Como era de esperar, os principais acusados negam qualquer conluio com os portugueses. Mas os outros falam. A confissão de Valentino Mangana descobre o plano maquiavélico de Lisboa.
   Estabelece de forma precisa o processo de organização e de aplicação de diversos métodos de subversão visando, não a eliminação do secretário geral do PAIGC mas antes a liquidação do movimento.
   Com efeito, ele explica que as autoridades coloniais portuguesas lhe tinham dito o seguinte:
  “ Portugal está pronto a conceder a independência aos Negros da Guiné-Bissau na condição de:
  -   Primeiro, o PAIGC ser eliminado.
-         Segundo, todos os cabo-verdianos sejam excluídos de todo o movimento nacionalista, porque Portugal tenciona conservar as ilhas de Cabo Verde, que constituem, para si e seu aliados, uma base estratégica de importância capital.
-  Assim os Negros devem desembaraçar-se de todos os Mestiços. Isto feito, Portugal constituirá um governo composto por todos os que tiverem cumprido eficazmente esta missão. As forças portuguesas recuarão para as linhas de Cabo Verde e cooperarão com os Negros da Guiné-Bissau no sentido de lhes assegurar protecção.”
   Mangana precisa que alguns dirigentes não permaneceram indiferentes a esta promessa dos colonialistas portugueses, consequentemente, organizaram-se para a execução das tarefas que lhes estavam destinadas.
   São, então, organizadas infiltrações nas fileiras do PAIGC. Agentes (negros)  da PIDE/DGS, que se apresentam como desertores do exército colonial e como nacionalistas convictos, são utilizados para este efeito.
   Este testemunho de Mangana é confirmado e completado pelo de Lansana Bangoura, outro aderente de última hora, que explica os detalhes dum plano de agressão preparado, simultaneamente, contra a República da Guiné as Repúblicas da Tanzânia e da Zâmbia. Estava previsto o fomento de desordens nos três países, a favor da acção subversiva dos traidores infiltrados no PAIGC, na Frelimo e no MPLA.
   Aproveitando a confusão assim criada nos três países, estavam previstos  ataques aéreos, marítimos e terrestres.
   Simultaneamente, as forças portuguesas deveriam desencadear uma grande ofensiva contra as regiões libertadas da Guiné-Bissau, de Moçambique e de Angola.
   Na estratégia do fascismo português, o ano de 1973 era considerado como ano decisivo para a liquidação dos movimentos de libertação nacional.
   Eis “Néné”, um dos responsáveis pelas telecomunicações do “PAIGC ! Colocado ante a evidência, confessa que já tinha comunicado por rádio, para Bissau, a liquidação do “homem grande” (Cabral). A sua confissão prova indubitavelmente que os conjurados eram totalmente manipulados pelos serviços portugueses  e que Mamadou Touré, “Momo”, era, ao que parece, o seu delegado em Conakry.
   Um outro traidor, Nabonia, chamado “Batia” era membro da guarda pessoal de Cabral. Ele é que tinha fornecido aos assassinos o programa de uns e de outros para a noite fatal. Ele próprio pede que as suas declarações sejam gravadas.
   Cita os nomes dos seus cúmplices, precisa as ligações com os serviços de Spínola.
   No dia seguinte, após ter almoçado, sob forte guarda, com os seus companheiros de prisão pede para ir ao lavabos. Ao chegar junto de um sentinela, salta bruscamente sobre o miliciano que atira pela janela, apodera-se de uma espingarda “AK” que vira contra si e dispara. Morre no hospital.
   Inocêncio Kani, o assassino de Cabral, preso, ele também, no mar com os 21 homens que lhe tinham obedecido, confessa procurando desculpas ridículas:
  “ Abati Cabral, diz ele, porque ele tinha levado a mão ao bolso para tirar a pistola.” (Cabral não estava armado nesse dia). Não devíamos matá-lo, precisa.
   A sua motivação ?  È necessário procurar na sua vida agitada. Professor católico, aderira ao movimento nas vésperas do desencadear da luta armada. Nele assume responsabilidades. Mas, após  alguns anos de luta, o homem estava gasto. Já não estava à altura da sua missão. È Cabral quem insiste em 1967 com essa preocupação de salvar os homens que sempre o animou – para que Inocêncio seja chamado a outras tarefas: reforçar a marinha da Guiné-Bissau. Segue-se a Academia Naval soviética, para onde é enviado em estágio, o regresso à frente de um comité tripartido que dirige a Marinha, à entrada no comité executivo de luta.

   OS VERDADEIROS CONSPIRADORES



   Em 1971 é a queda. È excluído, por unanimidade, do comité executivo e é ao mesmo tempo censurado por se ter envolvido na venda de um motor naval, Inocêncio nega. É aberto um inquérito suplementar. Entretanto, Cabral confia-lhe provisoriamente  o comando de uma vedeta.
   É este o homem que o vai matar.
   Todavia, ele é apenas o braço armado pelos conspiradores. O braço que era comandado pelo principal executante, enviado dezoito meses antes de Bissau para Conacry: Mamadou Touré, chamado “Momo”.
   Este antigo empregado de bar, tem hoje 33 anos, foi membro do comité do PAIGC antes do inicio da luta armada. A 13 de Março de 1962, “Momo” é preso pela Pide em Bissau.
   Era então um activista corajoso e responsável pela 3ª zona da capital e agente de ligação com a direcção estacionada em Conacry, na República da Guiné.
   Sumariamente  julgado por um tribunal português, “Momo” é condenado de trabalhos forçados e enviado para o sinistro campo do Tarrafal – ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo-Verde. Aí encontra um personagem que vai desempenhar um papel decisivo na sua futura carreira de...traidor.
   È Aristides Barbosa, 30 anos, um agente português introduzido no campo de concentração de Tarrafal para conseguir a confiança dos nacionalistas. Perito em acção psicológica, mostra-se muito activo e realiza um trabalho intenso de educação política, de luta contra o analfabetismo entre os detidos do PAIGC que se encontravam no campo. Depressa se torna amigo de “Momo” que consegue recrutar para os serviços secretos portugueses.
   “Amnistiados” pelo governador Spínola em 1970, “Momo” e Aristides Barbosa regressam a Bissau para se colocarem à disposição das autoridades portuguesas. E é em Bissau que “Momo” reata os seus contactos com o personagem mais importante do caso: Rafael Barbosa (homónimo de Aristides Barbosa, mas sem nenhum laço de parentesco).
   Quem é este último ?  Como e porquê este primeiro presidente do PAIGC se aliou aos portugueses e aceitou participar na conspiração ?  Filho de um cabo-verdiano  e de uma guineense, Rafael Barbosa, dito “Zain Lopes”, é capataz de obras públicas quando adere ao PAIGC nos primeiros tempos de luta. Em breve é agregado à presidência do comité central de então. Posto honorário, sem dúvida, mas nem por isso ele deixa de ser um dos seus chefes históricos. É corajoso, activo, próximo de Cabral.
   Em 1962, é preso pelos portugueses. Durante sete anos o seu comportamento na prisão será, aparentemente, exemplar. Mas é amnistiado em 1969. E ei-lo que adere à política de colaboração com o ocupante, aquilo a que este chama “política da Guiné melhor”   fabricada pelo governador português Spínola.
   De facto, Rafael Barbosa tinha sido “desviado” durante a sua detenção. Tinha-lhe sido prometida a direcção do país quando este fosse tornado “autónomo” no quadro da comunidade portuguesa. E quem sabe, ter-lhe-iam dado a entender que, um dia, ele poderia conduzir o país a uma espécie de “independência” concedida sobre o controle neocolonial de Lisboa, na condição de renunciar às ilhas de Cabo Verde.  Com esta intenção, Spínola constitui à socapa em Bissau, uma organização fantoche dita frente unida de libertação (FUL) sob a direcção de Rafael Barbosa.
   Com Rafael Barbosa, “Momo” estabelece, sob a direcção dos serviços secretos portugueses, os detalhes minuciosos da conspiração destinada a derrubar a direcção do PAIGC, a substitui-la e a “negociar” com Lisboa a “independência”  da Guiné Bissau.
   Neste sentido, era necessário que “Momo” e seu cúmplice, Aristides Barbosa, alcancem Conakry, se infiltrem no seio do PAIGC, recrutem partidários entre os corrompidos e os ambiciosos e, com o apoio de  numerosos “desertores” que deveriam aderir ao PAIGC por ordem do  general Spínola, preparar e executar o plano traçado em Lisboa e Bissau.
   Foi o que “Momo” e o seu cúmplice fizeram em Agosto de 1971.
   “ Spínola queria prender-me novamente”, pretende “Mono” desde a sua chegada a Conakry para justificar a sua presença inesperada.
   Cabral recebe-o de braços abertos e manda-o repousar num país socialista.
   Quando regressa, “Momo” dá uma conferência  sobre a sua vida no campo do Tarrafal, na escola de quadros do partido, e conclui com um elogio a Rafael Barbosa, homem integro, diz ele decerto, ele fez declarações em favor dos portugueses, mas em condições difíceis:  “ Não devem ser tomadas, diz “Momo”, à letra porque eu sei que ele continua a ser o patriota que sempre foi.”
   Esta tentativa de reabilitação do ex-presidente do partido, o qual anteriormente, tinha sido severamente condenado pelos militantes, tem um efeito de uma bomba.
   Todavia, Cabral não atalha:
   “Rafael diz,  foi um homem corajoso. Conheço-o bem, o seu comportamento na prisão foi muito digno. Portanto, é necessário esclarecer esta ambígua antes de tomar uma posição definitiva sobre o seu caso.”
   Mas “Momo” continua a sua acção de desmobilização, de subversão.
   Ele é malinké e muçulmano. Aos responsáveis fulas e mandingas, que constituem a minoria muçulmana, ele diz que os balantas, aliados aos cabo-verdianos, são um perigo para o Islão.

   O CHEFE DOS GUARDAS


   Em reuniões, frequentemente semi-clandestinas, ele opõe os guinéus aos cabo-verdianos: “Se Cabral não insistisse em tanto libertar Cabo Verde, após dez anos de luta, repetia incessantemente, estou certo que os portugueses renunciariam à Guiné Bissau e nós seriamos independentes....”
   Finalmente desmascarado pelos serviços de segurança do PAIGC em Junho de 1972 é preso, juntamente com o seu cúmplice e directo colaborador Aristides Barbosa. “Momo” confessa então ter contactado entre outros, Inocêncio Kani e Inácio Soares da Gama, dois responsáveis da marinha do PAIGC; com o objectivo de derrubar a direcção do partido. Mas estes dois últimos negam categoricamente as “calúnias” dum traidor que quer manchar a marinha. Acredita-se neles. Tanto mais que se tratava de oficiais que tinham combatido longamente de armas na mão contra o ocupante português. Além de que se sabia que “Momo”, pretendendo lançar a confusão tinha já, acusado muitos outros camaradas irrepreensíveis.
   Detidos na “montanha” aguardando julgamento, “Momo” e Aristides Barbosa prosseguem com os preparativos do pusch, os seus contactos com Bissau e com os seus cúmplices são mantidos graças à ajuda do chefe dos guardas: Mamadou N’Diaye.
   E isto até à noite fatídica de 20 de Janeiro de 1973

(documento destribuido em Lisboa sem identidade)

15 setembro 2010

Amílcar Cabral fala aos portugueses

Conferência de Kartum (Sudão) em Janeiro de 1969.
Conf. de solidariedade para com os povos das colónias portuguesas, a qual servirá de base à preparação da Conferência de Roma, onde Amílcar Cabral desempenha um papel fundamental e decisivo.

Amílcar Cabral fala aos portugueses

"A Conferência de Kartun marca quanto a nós, uma etapa da nossa luta em relação à opinião pública internacional. Até agora não tinha ainda havido uma reunião deste género com objectivo de informar os representantes da opinião pública anti-colonialista nomeadamente da Europa e da América sobre o avanço das nossas lutas, sobre a situação concreta dos nossos países e sobre a atitude negativa, digamos mesmo, criminosa do governo português colonialista.
Estamos convencidos de que atingiremos os objectivos visados pela Conferência. A partir deste momento a opinião pública internacional, mais bem informada, poderá tomar medidas concretas no sentido de mostrar a sua solidariedade em relação à luta dos povos africanos das colónias portuguesas.
Claro que nós, na Guiné e em Cabo-Verde, damos às conferências o valor que realmente têm, e por isso, não esperamos mais delas do que aquilo que podem dar-nos porque acreditamos que cada povo deve esforçar-se e bater-se para reconquistar a sua dignidade de povo soberano e dono dos seus destinos.
Tendo isto presente, consideramos que o apoio internacional é muito importante, designadamente neste caso em que o governo colonialista português é o braço forte da engrenagem capitalista que quer sufocar os movimentos de libertação africanos.
Relativamente à libertação de prisioneiros de guerra efectuada pelo PAIGC, quero dizer que para o nosso povo da Guiné e Cabo-Verde, para os nossos combatentes em geral, o facto de termos libertado na altura do Natal mais três prisioneiros de guerra portugueses não constitui nada de novo e está na linha da nossa política. Nós sempre afirmamos, claramente, que nunca confundimos o povo de Portugal com o colonialismo português.
Já em Março de 1968 tínhamos libertado três outros prisioneiros de guerra. Achamos que valia a pena liberta na quadra do Natal mais três. Este gesto para com o povo português demonstra também ao mundo que o governo colonialista de Portugal mente quando, afirma que nós somos bandidos, terroristas e povo selvagem.
Aos três prisioneiros que libertamos manifestamos o nosso, desejo, que encontrassem as suas famílias e lhes falassem de nós, para de qualquer modo e, apesar dos crimes do governo colonialista se manterem os laços entre o povo de Portugal e o nosso povo.
Evidentemente que quando um governo chega à situação em que está o governo português tem de se mentir e mentir muito.
Isto compreende-se mas não pode aceitar-se.

Se os comunicados de guerra do governo fascista, querendo esconder a existência de prisioneiros afirmam que morreram ou desapareceram soldados que depois "milagrosamente" aparecem, uma conclusão há a tirar de tal mentira. É que o governo português não tem consideração para com o seu povo a quem mente grosseiramente, nem pelos jovens que à custa de sacrifícios e da própria vida se batem na nossa terra ingloriamente, numa guerra criminosa.
Não consideramos que um prisioneiro de guerra merece respeito, pois está dando a sua vida, quer defenda ou não uma causa justa. Por isso chamamos a atenção do povo e dos patriotas portugueses para que forcem o governo a respeitar o mínimo das normas internacionais que regulam a situação dos prisioneiros de guerra.
Mas muita gente pensou que o desaparecimento político de Salazar significava, pelo menos para o governo de Portugal, uma modificação, no quadro do respeito pelas leis internacionais e sobretudo de defesa dos interesses do povo português.
Salazar pela sua mentalidade obstinadamente fechada às realidades do mundo de hoje, conduziu uma política que o precipitou no buraco tremendo da guerra colonial.
Mas nada teria obrigado Marcelo Caetano a entrar no mesmo buraco. É conscientemente numa atitude verdadeiramente criminosa que ele prossegue a política colonial de Salazar. Para se justificar, porém, dessa atitude Marcelo Caetano tem de inventar "Histórias do arco da velha", como se diz em Portugal.
A história de que nós estamos a lutar para fazer da Guiné uma base para entregar Cabo-Verde aos comunistas, significa que Marcelo Caetano julga que ainda pode enganar os Portugueses.
Estamos convencidos que o povo português não se deixa enganar e nós e os patriotas portugueses cá estamos para pôr as coisas no seu devido lugar.
Nós lutamos de facto para libertar a Guiné e Cabo-Verde afim de que os nossos povos tenham a possibilidade decidir os seus próprios destinos.

Repetimos o que muitas vezes temos afirmado: nós queremos libertar a nossa terra para criar uma vida nova de trabalho, justiça, paz e progresso em colaboração com todos povos do mundo e muito particularmente com o povo português. O que Marcelo Caetano teme é que o povo português saiba que a Guiné e Cabo-Verde são parcelas duma África livre e independente e qualquer delas aberta a uma colaboração franca e leal com o povo de Portugal.
Batendo-nos até à libertação total da nossa terra, não perdemos de vista um objectivo que consideramos de importância para o nosso povo, a colaboração e cooperação futura com o povo de Portugal.
Quando Marcelo Caetano que hãode defender, custe o que custar, a Guiné, pensa na vida dos jovens portugueses que ele vai obrigar a morrer como tantos que já morreram ou ficaram mutilados ?.

Consta-nos que o governo de Portugal vai enviar para a nossa terra mais de dez mil, quinze mil ou mesmo vinte mil homens, segundo chegaram a dizer. Seja qual for o número governo português não fará mais que enviar homens para a morte.
A isso, o povo de Portugal deve opor-se, como deve exigir o regresso dos seus filhos que morrem por uma causa injusta enquanto na sua própria pátria faltam braços jovens para trabalhar a terra, para construir Portugal para como dizem os poetas, redescobrir a sua terra.
Nós sabemos, e eu falo como técnico que Portugal tem condições para oferecer uma vida digna a todos os seus filhos. Esta é que é a Pátria que os portugueses têm que defender e engrandecer com os seus esforços e sacrifícios e nela amanhã de certeza colaborarão connosco na Guiné e em Cabo-Verde para juntos darmos as mãos fraternalmente, baseados na história, baseados na amizade, baseados em tudo que nos une.

A propósito das últimas manifestações contra as guerras coloniais, decorridas em Portugal, devemos dizer que encaramos com muito apreço e que as seguimos com a maior atenção. Sempre dissemos ao nosso povo, aos nossos combatentes, que o povo português é um povo que já deu através da História uma transcendente contribuição para a evolução da humanidade. Queremos afirmar que a atitude dos estudante e do povo nas suas acções recentes quer na Igreja de S. Domingos, quer pela ocasião do enterro de António Sérgio, são para nós motivos de coragem, e mais do que tudo uma confirmação de que nada existe de contraditório entre o povo de Portugal e o nosso, de que não há nem nunca houve, nem haverá nenhum conflito a separar-nos e que sejam qual for os crimes dos colonialistas, os nossos povos irão dar as mãos para uma colaboração fraterna. Marcelo Caetano ao suceder a Salazar, podia e não quis acabar com as guerras coloniais.

Essa missão confiamos que a levará a cabo o povo português, através dos seus operários e camponeses, dos seus intelectuais progressistas ou anti-colonialistas de todos aqueles, em suma, que amam de facto Portugal, e que sabem que lutar contra a guerra colonial é salvar Portugal do sofrimento e da ruína, do perigo que essa guerra cria para a sua própria independência"

Amílcar Cabral