29 março 2012

A LONGA NOITE DA GUERRA COLONIAL

Moçambique




Angola


"Diário Noticias"  Jan/98


Guiné Bissau


Guiné Bissau
(Fotos c/créditos)

03 março 2012

ANGOLA; PORQUÊ SÓ LUANDA



Grupos de brancos movimentam-se pelas ruas de Luanda. Empunhando cartazes e bandeiras. Tudo natural se, muitas vezes, o objectivo não fosse o incitamento à violência.

Grupos de brancos, envergando camuflados, batem à porta das casas de adobe dos musseques. Fazem-no invocando o nome das Forças Armadas. A porta abre-se – o tiro parte.
Grupos de brancos incitam os brancos de Luanda à violência, através de uma bem cuidada campanha de boatos, de panfletos apócrificos. Outros, ou os mesmos, antes de começar esta segunda fase de guerrilha urbana, incitavam os negros a matar os brancos. Faziam-no nas tascas dos musseques, entre “cucas” e palmadinhas nas costas. Porquê ?.
Nos musseques, a FLNA agia por sua conta, no mesmo sentido. Apelos sucessivos à violência e ao racismo. A principio, com muito pouca audição. À medida que a excitação subiu, à medida que das noites pacificas se quebrou o silencio com tiroteios esparsos e rebentamentos de granadas, a FLNA mais e mais apoio. O medo, sempre o medo, foi a grande cartada sabiamente jogada. Por quem ?.


O Mov. Democrático de Angola e outros agrupamentos políticos lançaram a ideia de um comício no Estádio de S. Paulo bem dentro dos musseques, com o objectivo aberto de apoiar a declaração do reconhecimento do direito à independência de Angola feita pelo general  Antonio Spínola; mas, o verdadeiro objectivo era tentar reunir brancos e negros, já afastados pelos incidentes até então acontecidos, num mesmo comício.
O comício falhou porque as Forças Armadas destacaram apenas tropas brancas para montar a segurança ao estádio. Mas o objectivo foi atingido, porque centenas de brancos se deslocaram ao estádio de S. Paulo para demonstrar que queriam e podiam participar na vida de um país finalmente livre e na construção de uma sociedade finalmente justa. O comício realizou-se fora das portas do Estádio e – consequência da “frente” de Bukavu -  bandeiras do MPLA e da FLNA foram erguidas em conjunto.


A reacção branca aproveitou a ocasião para lançar uma bem orquestrada e meticulosamente preparada campanha destinada ao lançamento da UNITA em Luanda.
Inventou-se um incidente no Bairro do Golfe – negros tinham rasgado, à frente da tropa e de um oficial, a bandeira portuguesa e hasteado em seu lugar a bandeira do MPLA. Começaram a circular novas histórias de violência cometidas contra brancos. Os comerciantes e outras gentes desorientadas correm ao Palácio do Governo Geral, que invadem literalmente. O vice-almirante Rosa Coutinho corre risco físico. Entretanto, cerca de quarenta manifestante brancos apresentam-se frente à sede da Polícia  de Segurança Pública para demonstrarem apoio a esta corporação, cujo saneamento foi anunciado superiormente há bastante tempo. Em volta deles começa a juntar-se mais gente, muitos policias desfardados. A manifestação acaba por se transformar numa manifestação de apoio a Jonas Savimbi, chefe da UNITA. “ Os brancos estão com Savimbi” – lia-se em cartazes. Os policias, das varandas do primeiro piso do edifício, juntam as mãos em agradecimento e erguem-nas acima da cabeça. Era o cair da tarde. Chegam viaturas com fuzileiros de camuflado. A multidão, umas mil pessoas incluindo os mirones – mas logo volta a avançar para ouvir um oficial da PSP, através de um megafone, pedir civismo e calma e dizer  “que não é assim que se lhes dá força”. Um oficial da policia, à civil, encaminha a manifestação para o Palácio.

A célebre Casa do Povo na Av. Brasil, local onde se iniciaram quase sempre as mais graves provocações ao povo angolano, guardada por um guerrilheiro ELNA , Exército da FLNA, antes da sua "conquista" e do fim do terror, processo em que as FALA, forças da UNITA, não intervieram, à semelhança do que tem acontecido quase permanentemente.
Ouvem-se gritos de “Viva a UNITA”, de “Viva Portugal” de “Viva Angola independente”, de “Viva a policia”. Elementos estrategicamente colocados controlam, tanto quanto possível, os manifestantes. Antes duas moças de cor e um jornalista que tiravam fotografias  são obrigados a refugiarem-se numa livraria, que fecha as portas para impedir depredações. O jornalista seria sovado, brutalmente, depois, dentro da sede da PSP, por elementos vestidos à civil. Hoje, é um “homem marcado”: quando sai à rua é reconhecido e agredido. Chama-se Manuel Rodrigues Vaz e é redactor de “O Comércio”.


Uma das duas moças seria agredida também, depois de sair da Policia. Começa a “caça aos MPLA”. Manifestantes voltam a cercar o estúdio do programa de radio independente “Café da Noite”; há uma tentativa de invasão de “A Província de Angola” (!); a Emissora Oficial é cercada por cerca de 300 brancos. Cortejos de automóveis, buzinas, gritos à UNITA, bandeiras portuguesas. O presidente da Junta Militar decreta, pela primeira vez em Angola e em Luanda, o recolher obrigatório. Os manifestantes desrespeitam-no. Continuam a percorrer as ruas asfaltadas, até à uma e meia da manhã. Impunemente.
Nessa noite, começa a nova série de incidentes nos musseques. O FLNA aproveita, por sua vez, a ocasião para aumentar a onda de violência. Os quadros do MPLA desfalcados tentam impedir o alastramento do conflito. A população pacifica dos musseques vê-se entre o fogo das Forças Armadas, dos “comandos” de contenção do MPLA. Tiroteios esparsos, rebentamento de granadas.
Na manhã seguinte, a cidade do asfalto acorda com propaganda à UNITA escrita em todos os cruzamentos importantes, grandes letras de cal, no chão. Manifestantes brancos cometem toda a sorte de tropelias, bem dentro da cidade branca. Mandam evacuar e fechar restaurantes e lojas e industrias. O Poder, naquela manhã, estava praticamente caído nas ruas.
No Hospital de S. Paulo volta a haver trabalho de emergência. Feridos às centenas, mortos menos. Quase todos negros. A clivagem está conseguida: brancos de um lado, negros de outro. O desprestigio do MPLA, sabiamente orquestrado, acentua-se: a população branca cai nos braços da UNITA, que já conseguira milhares de adesões no Sul de Angola, acolhe “desertores”, em massa, das tropas negras “Ges”, milícias armadas e do “exército privado” da ex-PIDE/DGS/PIM,  os “Flechas”.


Informações não controladas, portanto apresentadas ainda com reservas, dizem que a UNITA está a receber quantidades industriais de armamento da África do SUL. O dr. Jonas Malheiro Savimbi, aproveitando-se inteligentemente dos desacordos internos dentro do MPLA joga a sua cartada e ganha. A UNITA tem o apoio das associações económicas de Angola. Aparecem em Luanda panfletos apócrifos (a assinatura do MPLA sob eles é, obviamente falsa) dizendo que a carne de branco é excelente.


Os musseques estão praticamente em pé de guerra. Erguem-se barricadas. Os comerciantes vêem as lojas incendiadas e algumas delas pilhadas. São avisados, com antecedência, para se porem a andar. Eles e outros elementos da população branca são o braço armado da reacção. Delegações ao Palácio, manifestações nas ruas – sempre pouco numerosas - , insultos aos negros, o insulto aberto, a ameaça aberta...
Começam a ouvir-se tiros também durante o dia. O medo cresce. A desconfiança cresce. A convivência entre negros e brancos começa a tornar-se num mito. O FLNA engrossa as suas fileiras com simpatizantes do MPLA. Nos subúrbios acontece exactamente o mesmo que na cidade branca. Campanha de desprestigio das Forças Armadas, nem sempre a actuar com decisão e a oportunidade que se impõe, leva os negros a armarem-se com armas rudimentares.
Além destas, alguém fez “aparecer” pistolas, carabinas e pistolas-metralhadoras. Poucas ainda. Mas suficientes. Continua a morrer gente. Feridos continuam a chegar ao Hospital de S. Paulo, este mesmo, alvo de tiroteio por atiradores emboscados, durante duas noites seguidas. Luanda está à beira do pânico. Tanto a Luanda do asfalto como Luanda do subúrbio, donde todos os dias qualquer coisa como mil famílias partem para  “a terra”.


O “volte-face” da situação parece ter começado agora. Os dias e as noites a aparecer mais calmas, embora os tiroteios esparsos continuem a registar-se. Um avião especial leva comerciantes e suas famílias para Portugal. Reabre-se o campo de concentração de S. Nicolau, para acolher prisioneiros de delito comum. (O director deste campo, contra quem impedem gravíssimas acusações, fugiu da cadeia e continua a monte e a prémio !).


Tropas especiais vindas de Lisboa, fuzileiros e “comandos” com ordem para se deixarem de meiguices começam a controlar a situação delicadíssima. Criada por quem ? Pelo que se disse, transparece um planeamento cuidadoso. Quem o guisou ? Por enquanto, apenas suspeitas.
Ainda é cedo para dizer se a calma voltará a Luanda, se será possível começar, se será possível pôr cobro ao ódio tão cuidadosamente ateado. Luanda está à beira do abismo. Ainda é possível que tudo volte à normalidade ?.


FOTOS DE: Oscar Saraiva
                     J. P. Laffon

TEXTOS DE: Moutinho Pereira
                       António Macedo

Datas: Agosto de 1974 e   Julho de 1975

08 outubro 2011

UMA AULA NO LICEU DE SETÚBAL



Memórias de uma aula no Liceu de Setúbal.

Outubro de 1967


Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com
saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser mais do que velho. Somos o 7.º x e como não chumbou nem veio ninguém de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º xx, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é o lugar dos mais altos.

Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal, dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardina na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:

- Vocês são o 7.º x, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear.

Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam a cativar toda a gente.
A Carolina virou-se para trás e disse-me que já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho.
Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas.
Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se, efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, em pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia.
Depois veio o mais surpreendente:

- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.
Gargalhada geral.

- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em palhaçadas.

Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou impávido e sereno.
Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo simpático.

- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.
Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha passado pela frente um professor com tamanha ousadia.

- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse, como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que nos governa é uma ditadura desumana e cruel.

Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo branco, que se sente mas não se apalpa.

- Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria.
- Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque, no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º ano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês tem que fazer. Estudar.
Para serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que lutar por um novo país.

- Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha, basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida, mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão, educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei.
- Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país, carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e cultural.

- Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma
falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas.

- Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos com os outros. Por isso, acho que não devem copiar.
Há que criar princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e mulheres de Portugal. Não concordam?
Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.

Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras.
Que fenómeno é este que aterrou em Setúbal? Já me esquecia de escrever. 
Esta ave rara, era o nosso professor de Organização Política, chama-se Zeca Afonso.

( o meu obrigado à autora deste texto )

14 setembro 2011

OSCAR LOPES, NA LITERATURA PORTUGUESA


Óscar Lopes nasceu a 2/X/1917, em Leça da Palmeira, Matosinhos.
Licenciou-se em Filologia Clássica pela FLUL, em 1941, e depois em Histórico-Filosóficas, pela FLUC. Foi professor liceal entre 1941 e 1974. Entre 1967 e 1971 foi bolseiro do Instituto de Estudos Pedagógicos da Fundação Calouste Gulbenkian. É autor duma vasta obra nos domínios da Linguística e, sobretudo, da História da literatura.
Foi colaborador regular das mais importantes revistas literárias portuguesas, incluindo algumas ligadas à oposição antisalazarista: Seara Nova, Vértice, Mundo Literário, além da Colóquio/Letras, da Camões e do suplemento literário do jornal O Comércio do Porto.
Com António José Saraiva elaborou uma das mais influentes obras da cultura oposicionista sob o Estado Novo, a famosa História da Literatura Portuguesa, editada em 1955 e com mais de 20 reedições posteriores.
A partir de 1942 envolve-se em intensa actividade política e cívica oposicionista, tendo pertencido ao MUNAF, ao PCP (desde 1945), ao MUD, ao MND e à CDE. Entre outros envolvimentos associativos, foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores, fundador da Universidade Popular do Porto e dirigente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras. A sua intervenção cívica e a militância no PCP foram represaliadas pela ditadura com a prisão por duas vezes, a proibição de saída do país durante um longo período e o afastamento da universidade. Só depois da revolução pôde ser professor na FLUP. Foi membro do Comité Central do PCP entre 1976 e 1996.

SUV - Soldados Unidos Vencerão (Set 1975)









11 setembro 2011

CHILE 11/SET/1973 - ASSASSINO GOLPE MILITAR DE PINOCHET




1ª Parte


2ª Parte


Allende é vitorioso nas eleições presidenciais em 1970 e a Unidade Popular assume o governo. Mas não o poder, pois o aparelho de Estado, a organização burocrático-militar é mantida, no fundamental, intacta. (1)
No governo da Unidade Popular intensifica-se o processo de mobilização popular e implementa-se significativa melhoria das condições de vida dos trabalhadores, a reforma agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras, como as das minas de cobre, ferindo os interesses econômicos dos grandes grupos empresariais do Chile e do imperialismo. Estes desencadeiam sabotagens, boicotes, gerando desabastecimento de gêneros de primeira necessidade para a população, com intento de amedrontar, principalmente, as camadas médias e desestabilizar o governo de Allende.

Nas palavras do Embaixador dos Estados Unidos em Santiago, E. Korry, a Eduardo Frei, em carta de outubro de 1970: "Deve saber que não permitiremos que chegue ao Chile um parafuso, nem uma porca... Enquanto Allende permanecer no poder, faremos tudo ao nosso alcance para condenar o Chile e os chilenos às maiores privações e misérias..."

Ainda em outubro de 1970, o escritório central da CIA em Santiago fazia "... Informar a esses oficiais golpistas que o governo dos Estados Unidos lhes dará seu respaldo total no golpe ... (Cabo 762 do escritório central da CIA em Santiago. 14.10.1970).

Estava em preparação o golpe de Estado consumado em 11 de setembro de 1973, na operação sob o nome de “Chove Sobre Santiago”, executada pelas forças reacionárias do Chile, que teve como ponta de lança as Forças Armadas sob a direção do general Pinochet e que contou com o apoio direto da CIA, do governo dos EUA e também dos governos ditatoriais da América Latina, associados com o imperialismo norte-americano na "Operação Condor". O aparelho militar-policial do Estado chileno realizou um dos maiores banhos de sangue contra um povo nas últimas décadas na América Latina."

(1) - Voltaremos a esta questão

03 setembro 2011

COMBATE SEXUAL DA JUVENTUDE (Wilhelm Reich)



Do prefácio da edição alemã "Exórdio".

  "Este livro foi escrito para a juventude sem limite de idade. Não tem por fim a "explicação" habitual que afasta o problema das relações sexuais da juventude, mas quer, conforme as convicções de ordem científica, dar aos jovens repostas exactas, relacionadas com o grande problema da sua maturidade sexual."
  "São a situação social, o actual carácter da familia e da escola e a influência de toda a opinião pública, que determinam os rapazes e raparigas dos meios operários, os empregados e os camponeses, a apoderarem-se avidamente dos livros de informação sexual. 99% vão parar à obra nefasta de negociantes sem escrúpulos ou de médicos ignorantes de assuntos sexuais mas que se governam explorando a fundo a grande necessidade de esclarecimentos dos jovens de todos os meios. "

Wilhelm Reich, Janeiro de 1932


(capa do livro: das "Edições Delfos" colecção Livro Aberto - Novembro 1972)

16 junho 2011

EX-PRESOS POLÍTICOS


Por teu Livre Pensamento
Galiza, Rui Daniel
Este livro é o resultado de 25 entrevistas efectuadas a igual número de ex--presos políticos, por dois jovens sem qualquer memória pessoal do período em questão, que pela sua acção de luta contra o Estado Novo e em prol da implementação da Democracia em Portugal, viveram experiências de privação de liberdade e maus tratos nas prisões do fascismo.

Editora:  "ASSÍRIO & ALVIM"

SOLIDARIEDADE INSTITUCIONAL (na monarquia)

CARTA DO BISPO DO PORTO A SALAZAR - 1958

Ao Exm° Senhor Presidente do Conselho Lisboa


Porto, 13 de Julho de 1958

Excelência:
Cumpre-me, antes do mais, agradecer a V. Ex.a o ter manifestado a boa disposição de me ouvir.
Na verdade, estando eu, na ocasião das eleições, legitimamente ausente em Barcelona, a deslocação a Portugal, que se me pedia, por forma tão extraordinária e pública, não poderia deixar de considerar-se propaganda da Situação, visto que, nas condições das duas candidaturas, sem falar sequer na posição ideológica de quem mo pedia, era praticamente voto aberto. Isto tinha talvez menos importância; o que a tinha máxima era o carácter plebiscitário que se tem dado às nossas eleições, carácter que eu procurei fazer compreender ao grupo de pessoas que se me dirigiu e que depois V. Exa publicamente reconheceu.

Em tais condições e forçado a ser, diametralmente ao contrário do meu desejo, uma bandeira, eu não podia deixar de fazer uma declaração de voto. Como a não deveria fazer ao público requeri fazê-la a V. Exa.

Acho porém preferível enviar primeiro, por escrito, os pontos fundamentais dessa minha declaração, a fim de poder ser útil a nossa conferência.
Quero, sobretudo e antes de tudo, acentuar que aquilo que se põe à minha consciência é um problema directamente de Igreja.
A grande e trágica realidade, que já se conhecia mas que a campanha eleitoral revelou de forma irrefragável e escandalosa, é que a Igreja em Portugal está perdendo a confiança dos seus melhores. Não direi se este processo está em princípio, no meio ou perto do fim; o que é evidente é que tal processo está em curso, por mim penso que muito e muito adiantado. Apresentarei apenas dois factos, que, podendo servir de símbolos, são já de si realidades enormes. No Minho, coração católico de Portugal, onde se pensava que bastaria sempre o abade dar o alamiré e todos entravam imediatamente no coro, no Minho católico, mal os padres começavam a falar de eleições, os homens, sem se importarem com o sentido que seria dado ao ensino, retiravam-se afrontosamente da igreja.

Nas juventudes da Acção Católica, onde tanto se quis dizer que os padres andavam a lançar inquietações e dúvidas, os dirigentes mais responsáveis saltam fora dos quadros e da disciplina, para manifestarem a sua inconformidade e desespero, fugindo ao conhecimento dos assistentes (que, apesar de tudo, lhes aconselhariam paciência). São os dois pólos, o da tradição e o da recristianização: do que fica no meio facilmente se poderá julgar. Está-se perdendo a causa da Igreja na alma do povo, dos operários e da juventude; se esta se perde, que poderemos esperar da sorte da Nação?

Como meio único de salvação, querem que cerremos fileiras em volta do Estado Novo. E apontam-nos os dentes das feras, que se aguçam, e previnem-nos contra o masoquismo do martírio e lembram-nos os frades espanhóis que votaram pela república em lista aberta... tudo isto para que as ovelhas se congreguem em volta do pastor. Não me compete examinar nem discutir todos estes conselhos enquanto dirigidos aos cidadãos portugueses; mas cumpre-me examiná-los e julgá-los enquanto dirigidos aos fiéis da Santa Igreja, como tais e insistentemente como tais.

Temos obrigação de pedir e realmente pedimos a Deus que nos dê força e constância para afrontarmos a incompreensão e mesmo o martírio pela causa da Verdade e da Justiça. Mas poderemos traduzir esta imediatamente em termos de Estado Novo?!...
Ou, em atitude aparentemente contrária, abrigarmo-nos à sombra da pax augusta do Estado Novo, haja o que houver com a Verdade e com a Justiça?!...

Como terei de dizer que não identifico as duas causas, e como discordar em geral da situação é discordar de V. Exa, permita-me que apresente aqui umas recordações pessoais.
Há trinta anos estava eu em Roma, sob o esplendor do sol ascendente do fascismo, então quase sem manchas. Embora sob a maior revolta íntima, tínhamos de corar da nossa qualidade de portugueses. Isto todos o dizem, mas eu senti-o pessoalmente, por exemplo, quando apresentei uns escudos para cambiar num grande banco, e o empregado ordinário chama um superior e este folheia um dossier em que registavam notas falsas, notas retiradas, etc. e acaba por decidir: — não nos interessa a operação.
Num jornal humorístico, Portugal aparecia mendigando à porta da S.D.N. e obtinha esta resposta: aqui não se entra "a la portoghesa"!

Lembro bem a comoção e o entusiasmo, o sobressalto de esperança com que acompanhamos os inícios da carreira de V. Exa. Mais que para todos, era para nós, afastados da Pátria, uma espécie de resgate e reabilitação perante o estrangeiro desprezador. Devo conservar ainda algures um saco de papel em que religiosamente ia guardando cada palavra de V. Exa ou cada referência que lhe era feita. Além de tudo o mais que sentíamos como portugueses, acrescia que, sendo V. Exa para além da Sua competência profissional, apenas conhecido pelas suas actividades no campo católico, era uma espécie de oferta que a Igreja fazia à Pátria num momento crucial.
Pois não diminuiu a minha estima e respeito pela personalidade de V. Exa nem a minha admiração pela Sua inteligência.

E, no entanto...

Na tremenda crise nacional que a campanha das eleições pôs a nu, todos esperavam a palavra de V. Exa, uns para se guiarem, outros para julgarem do momento.
Ouvi e li, com o maior interesse, o discurso de V. Exa de 31 de Maio. Enquanto trata das políticas externa e ultramarina e do problema económico, salvas pequenas diferenças, não pude senão admirar a lucidez do raciocínio e o bem fundamentado das posições.
Quando porém cheguei ao problema social, tudo começou a ser difícil. Involuntariamente encontrei-me a fazer um exercício lógico (o qual depois segui conscientemente) que consistia em procurar a exacta contraditória das posições expressas por V. Exa, a fim de ver onde me devia situar. Pois confesso francamente que, desprendendo-me de cromatismos de sentido e cambiantes de expressão, que o próprio tom peremptório e às vezes enfático de V. Exa convidava a desprezar, me vi quase sempre obrigado a aderir à formal contraditória das afirmações do Seu discurso. Posso errar, mas creio bem estar com a doutrina da Igreja (aqui não se trata de mera política, mas de filosofia política e de sociologia) ao discordar de doutrinas que, sendo de V. Exa, são da Situação.

Permita-me V. Exa que, por me parecer da maior utilidade, eu alinhe aqui algumas dessas oposições, o que farei, por brevidade, sem qualquer demonstração e com um mínimo de aclarações.
Aponta Vª Exa, entre as reivindicações de certa campanha, a "reclamação de ser reconhecido o direito de greve" e conclui terminantemente: "Aqui nos separamos." Depois confirmaria V. Exa que "agreve é entre nós um crime". Tenho realmente pena, porque eles estão com a doutrina da Igreja, e num ponto que, tendo já deixado de ter interesse de maior em vários países, na conjuntura político e conómico- social do nosso é infelizmente da maior relevância.

— "Nós não aceitamos a ideia da incompatibilidade de interesses entre o patronato e o operariado mas a da sua solidariedade permanente". Porém, se a oposição de interesses é, na base, a própria evidência, e se a solidariedade só se pode pedir no vértice, quer da empresa, quer da profissão, quer da economia geral, mas com a condição de as duas partes em presença terem iguais direitos e formas equivalentes de os realizarem!...

— Completa V. Exa: "Se uma incompatibilidade de momento põe as duas forças em risco de chocarem, é necessário que o defensor do interesse colectivo arbitre a contenda de acordo com a justiça e o bem comum. "Podia justificar a minha discordância aduzindo o princípio da complementaridade ou função supletiva do Estado, válido como em tantas outras e ainda mais, nestas matérias económico-sociais; podia lembrar aqueloutro princípio gravíssimo de filosofia social, de que "se cometeria uma injustiça, ao mesmo tempo que se perturbaria seriamente a ordem social, se fossem retiradas aos agrupamentos de ordem inferior as funções que esses agrupamentos estariam em condições de exercer eles próprios" (Pio XI). Baste porém considerar — em aplicação, aliás, desses princípios — a impossibilidade ou inoperância de tal arbitragem.

Perante um qualquer problema de salários, de distribuição dos frutos do trabalho, das condições deste, ou da sua produtividade, que terá a dizer em concreto a mera justiça legal? Se nascem conflitos do estado de enervamento dos operários, do espírito despótico ou mesquinho do patrão, do atraso sociológico duns e doutros, das crises de desenvolvimento duma indústria, como se fará ouvir a voz do bem comum? Quando os melhores teóricos da economia e da sociologia se confessam desorientados com certas evoluções do mundo do trabalho e da economia — não vemos nós hoje incorporadas nas instituições certas coisas que ontem nos pareciam subversivas?... — quando, mesmo em abstracto, questões se apresentam cuja solução só se pode esperar do livre jogo das forças sociais, que poderá dizer o defensor do interesse colectivo, um pobre delegado do Instituto N. do Trabalho a essas mesmas questões postas na complexidade do concreto?!

Tomemos, por mero exemplo, as greves de Abril em Espanha, que os jornais disseram provir duma exigência de redução de horas de trabalho (embora pareça que isto não é verdade). Logo se falou, parece que oficialmente, de comunismo. Mas não tinha o Papa, pouco antes, falado da perspectiva da diminuição do tempo de trabalho e das novas responsabilidades de aí emergentes para a Igreja e para a Sociedade?... Poderá o defensor do interesse colectivo dizer quando, como, em que actividades e por que caminho e progresso se vai operar esta evolução, sem dúvida justa e desejável? Mas, tanto sobre este como sobre os outros incontáveis problemas da que se chama precisamente questão social (que mesmo em Itália, depois de tantos esforços — lembrava Mons. Montini, ultimamente e sem receio de perturbar — não está resolvida nem ultrapassada), haverá que deixar de aplicar-se o princípio, que creio se ensina em todas as universidades, de que o direito vem sempre no fim?! Será aqui, e só aqui, que a vida haja de esperar pelo direito, para começar a viver?! Ou, para usar a conhecida expressão anedótica, deixará de ser verdade aqui que o direito (positivo, evidentemente) começa por não existir?!

— Mas V. Exa alarga ainda a perspectiva, põe frente a frente o liberalismo e o comunismo — parecendo excluir a possibilidade essencial dum terceiro — e, sob o ângulo do "interesse da colectividade", conclui que o comunismo, ao varrer das leis e da prática o livre jogo das forças sociais, "tem inteira razão". Vários regimes de autoridade — o fascismo, confessamente — se puseram em dialéctica com o comunismo, ou vieram a chegar evolutivamente a essa posição. Uma mentalidade comunista deve saudar tal facto, como realização precisa do seu programa e suas previsões — a síntese, provocada pela antítese.

Mas, na medida em que aqui se incluam as questões fundamentais, da liberdade e autoridade, da justiça e da ordem, da pessoa e da colectividade — e em boa verdade não vejo como afastar essas questões de perspectiva tão larga e de expressão tão categórica — nessa mesma medida tenho de pensar que o comunismo não tem razão nenhuma. E com a mesma lógica e pelos mesmos motivos penso que o comunismo pode coincidir com certas incidências concretas da sociologia cristã, que lhe é anterior, sem que por isso haja razão ou vantagem em falar de filocomunismo ou criptocomunismo para lançar a divisão entre cristãos. Parece que foi Durkheim quem disse que para muitos o comunismo era menos uma ciência do que um grito de dor. Por mim vejo todos os inconvenientes em transigir com a ciência; mas não vejo vantagem nenhuma em afogar o grito de dor.

— "Nós não podemos perder uma hora de trabalho, nós não podemos diminuir o ritmo do nosso esforço..."
Parece-me que, numa justa hermenêutica, estas palavras se devem tomar antes na sua tendência, que é de justificar a atitude que se vem defendendo, do que na sua materialidade de expressão. Como porém essa tendência vem já sendo objecto da minha discordância, permitame V. Exa que me cinja por um momento ao conteúdo material que se assinala.

Apesar do meu feitio sedentário, não tenho nos últimos anos recusado as oportunidades que se me oferecem de viajar pela Europa; e tenho-o feito ao rés da terra e da gente e com toda a possível atenção. Nem para isso seria necessário o conselho discreto de vários sociólogos, amigos de Portugal, que por delicadeza nem sequer me dizem as razões desse conselho. Não poderei dizer quanto me aflige o já hoje exclusivo privilégio português do mendigo, do pé-descalço, do maltrapilho, do farrapo; nem sequer o nosso triste apanágio das mais altas médias de subalimentados, de crianças enxovalhadas e exangues e de rostos pálidos (da fome e do vício?).

Mas, particularmente no ponto preciso do trabalho e do seu ritmo, tenho colhido a impressão espontânea, que pode ser ilusória mas não tem sido desmentida, de que em parte alguma, mesmo no Sul da Espanha ou da Itália, se nota como entre nós o ritmo lento do trabalho, um aspecto de desemprego lavrado, a pequena diferenciação ou quase confusão entre as horas de trabalho e o tempo de lazer — ou lazeira, como melhor se diria, com a voz do povo.

— "Nós não podemos admitir que o espírito de luta e o ódio se enxertem onde só a cooperação amiga pode triunfar".
É aqui que está toda a questão imediata. Se eu pudesse pensar que o espírito de luta e o ódio não estão a subir tremendamente e se não estivesse convencido que essa subida resulta de erros substanciais, podia decerto dormir tranquilo e continuar a vogar nas águas mansas e falazes duma paz exterior. Porém o que me parece trágico é que as tensões sociais e políticas estão a subir perigosamente e, à falta da nossa preparação e iniciativa ordeira, podem ser de um momento para o outro desencadeadas por loucos a benefício de criminosos.

— "Não esquecemos os egoísmos humanos, nem os abusos, nem mesmo a pobreza ou a miséria material ou moral que daí possam derivar; digo que há formas mais correctas e mais seguras de dominá-los, com benefício geral".
Devo confessar que as não conheço, essas formas. Tenho procurado debruçar-me sobre a doutrinação do Santo Padre, o grande e imparcial observador (além do mais), bem como sobre o ensino dos bispos do mundo, primeiros e últimos defensores da paz cívica entre o povo cristão, e não tenho conseguido divisar que as soluções se apontem no nosso sentido. Tenho prestado sempre a maior e benévola atenção às palavras de V. Exa e às dos mais responsáveis expoentes da Situação e, em filosofia política e sociológica, não tenho conseguido tranquilizar-me nem quanto à correcção nem quanto à segurança.

Todos estamos de acordo em que há dois problemas fundamentais, sem cuja solução não poderá haver paz social, sejam quais forem as aparências. O primeiro é que os frutos do trabalho comum devem ser divididos com equidade e justiça social entre os membros da comunidade, quer no ponto de vista dos indivíduos quer no dos sectores sociais (e aqui podemos pensar especialmente na lavoura e na miséria do trabalhador do campo).
O segundo é que, seja qual for o conforto ou riqueza que se atribuam a um indivíduo ou a uma classe, nunca eles estarão satisfeitos enquanto não experimentarem que são colaboradores efectivos, que têm a sua justa quota-parte na condução da vida colectiva, isto é, que são sujeito e não objecto da vida económica, social e política.

Quando o exame se impõe, parece que as críticas negativas do primeiro ponto são unânimes, quer elas partam de oposicionistas ou de situacionistas.

Quanto ao segundo quase nem se fala, o que poderá talvez compreender-se por a negatividade do primeiro barrar o caminho ao segundo. E no entanto talvez a incompreensão para o segundo seja causa do que no primeiro é clamoroso e parece inexplicável e insolúvel. Porquanto, na melhor das hipóteses, encontramos entre nós apenas o paternalismo patronal. Ora é já hoje mais que evidente que o mundo operário e camponês não podem ser educados pelo patronato. Não podem nem querem; e temos de lhes reconhecer razão, por mais que desejemos e apreciemos o bom sentido social dos patrões, que por essa compreensão exactamente devia começar. E nem será necessário para isso lembrar como muitas vezes essa "educação" facilmente se transforma em "ensino" e depois em "ensinadela". Patrões muito "bons" e muito "católicos", com toda a naturalidade nos falam esta linguagem, a nós bispos, como se nós houvéssemos de aprovar autênticas declarações de guerra social. Se a não podemos aprovar do lado menos responsável, havemos de a aprovar do lado mais capaz, mais obrigado e mais responsável?!
Que o Estado venha educar ou "ensinar" os trabalhadores é também do maior melindre. Não seria preciso vivermos numa época de "suspeição ideológica" para que os operários desconfiassem do favor; na situação presente é quase fatal que o operariado veja, como vê, no Estado o aliado do patronato.

Mas será realmente o Estado uma sociedade "docente"? Parece que em todo o mundo não-totalitário essa noção errada desaparece, com grandes vantagens em todos os domínios, principalmente no do trabalho.

— "O pior é pensar-se que se pode realizar qualquer política social com qualquer política económica; que se pode erguer qualquer política económica com qualquer política financeira..."
Parece que nestas palavras se estabelece um nexo lógico entre os êxitos evidentes da política internacional e ultramarina e uma política social em discussão: que esta seria o preço da grandeza nacional. Embora me pareça discutível, em vários aspectos, tanto aquela ligação como o volume e a aplicação deste preço, não haverá necessidade de especial exame sob este ângulo.

Parece porém da maior vantagem considerar a hierarquia de valores sobre que se tem vivido e que nesta passagem se estabelece formalmente. Não há que discordar dela, sob o aspecto material; sob o aspecto formal porém creio achar-se aqui a causa principal das nossas dificuldades. E nem sequer irei para o raciocínio, que se poderia chamar metafísico, segundo o qual nunca o humano se poderá sacrificar ao material; e no entanto isto é não só verdadeiro, mas da melhor filosofia política e intimamente sentido pela consciência, embora turva, da multidão.
Mas consideremos apenas o concreto dos efeitos e da situação. O presidente Kubitschek de Oliveira confiou há pouco à imprensa que V. Exa numa conferência de duas horas tentou convencê-lo de que, como base da modernização do Brasil, devia estabelecer uma moeda sã. Acrescenta porém que resolveu não seguir esse conselho, porque se tal fizesse começariam o descontentamento, as inquietações e a revolução.

Nem sequer me passa pela mente fazer comparação entre as pessoas nem entre os métodos de trabalho. Mas quando vemos o estado de espírito revolucionário, entre nós, poderemos deixar de pensar nas razões — que podem não ser a razão — do Presidente do Brasil?

Posso errar e quase admito que deva errar, porque estou, neste ponto, fora da minha competência; mas não posso furtar-me a pensar que a fonte material dos males nacionais se pode encontrar na rigidez da escala de valores adoptada e mantida. Uma coisa, que era necessária e foi maravilhosa, até politicamente, no princípio, na era do resgate, pesou tremendamente na era que V. Exa chamou, se bem me recordo, do engrandecimento. Um financismo à outrance (operando aliás pela compressão dos preços, contra o aumento da circulação fiduciária), invertido num economismo despótico, actuando dentro duma socialidade cujos erros venho procurando apontar, não podia deixar de resultar e resultou efectivamente (com excepção do período inicial dos abonos de família) em benefício dos grandes contra os pequenos e finalmente na opressão dos pobres.
Não esqueço as grandes possibilidades de trabalho que o Estado e as grandes empresas criaram; mas isso porém não impediu que se estabelecesse e fechasse o que podemos chamar o ciclo da miséria.
Falando assim, eu não quero tomar partido pelos excessos do socialismo ou pelo descalabro financeiro; apenas não posso deixar de pensar que na acção política, como em tudo e mais que em tudo, a virtude está no meio e que, se o equilíbrio financeiro é óptimo, nunca deve deixar de estar ao serviço do homem, porque aliás corruptio optimi pessima. Não perco de vista as dificuldades, ansiedades e perigos que as más finanças oferecem por esse mundo; mas parece-me que, através de tudo, se procura salvar um princípio verdadeiro: que as finanças são o primeiro servidor e não podem ser, senão excepcional e transitoriamente, o senhor da Nação. (Como o dinheiro, para o homem indivíduo...).
Mas, reconhecendo que devo ser incompetente nesta matéria, peço para reter apenas a advertência — e só como advertência — de Kubitschek de Oliveira...

— "E não se receie pela formação de partidos".
Todos os oradores da União Nacional insistem no esquema político de 1926 e V. Exa empresta-lhes a Sua imensa autoridade, antevendo os vários partidos e mesmo o da "democracia cristã, visto haver quem julgue que em tais condições por esse caminho mais assegurada fica a defesa da Igreja". Podia dizer, sobre este último inciso, que o problema essencial não é directamente a defesa da Igreja, mas da ordem civil e social; e penso mesmo que a maior necessidade dos católicos é ultrapassar a mentalidade de Centro Católico, que cada vez mais se torna uma mentalidade de catacumba ou mesmo de gheto, da qual a Igreja já só pode esperar um "amor de perdição".

Mas falemos directamente das previsões políticas. E aqui mais uma vez insisto que me cabe naturalmente errar, e até por duas razões: primeiro porque estamos a predizer o futuro, que é ofício que Deus não gosta de confiar a outrem, como disse Peguy; segundo, porque, tratando-se de política concreta, estou fora da minha competência, visto que essa não é mister da Igreja, embora o seja dos católicos.

Não posso contudo furtar-me a pensar que o esquema mental que se adopta e segue é inteiramente inadequado. Trinta e dois anos não deviam ter passado e não passaram em vão. A nossa perspectiva é muito mais grave do que essa balbúrdia sempre ridícula e às vezes sanguinolenta. O que está diante de nós é a ameaça duma tremenda irrupção anarco-social-comunista; e todo o nosso problema é saber se as forças da civilização, hoje claramente forças do cristianismo, serão capazes de aguentar o embate.

Parece que tudo está a trabalhar, sobretudo da nossa parte, para preparar a derrota. V. Exa insiste em que a política não tem futuro, mas sim a necessidade de governar. Concordo, mas precisamente no sentido de que a política vai submeter-se à sociologia. E aqui estão bem desenhadas duas frentes, perante as quais todas as divisões pessoais, grupais e partidárias, com nomes e sem nomes, perdem a importância. Por outras palavras: se o comunismo vencesse não mais haveria partidos, e o comunismo só não vencerá se conseguirmos unir a frente cristã (com um ou vários nomes) numa verdadeira sociologia cristã. Nem sequer recuso a possibilidade de um dia as duas frentes se unirem (sem exclusão, é claro, das diferenças, quero dizer dos differenda, pessoais ou profissionais) e isto será a ordem corporativa da sociedade. Mas vejo isto tão longe da nossa "ordem" presente, que a verdadeira esperança corporativa parece estar apenas em que os países chamados democráticos ou socialistas, sem o dizerem nem talvez o saberem, avançam nesse caminho ou desenham essa tendência.

Quanto a nós, apesar das aparências e da urgência — "nos próximos seis meses"... — sinto ter de pensar que não estamos a caminhar, a não ser do avesso.

Por menos democrático ou por mais antipartidário que se seja, não pode esquecer-se legitimamente aquele consensus, aquela ideia constitutiva dum povo que é, para Cícero, o próprio sentimento ínsito na massa popular de estar unida iuris consensu et utilitatis communione, o que St.° Agostinho transferia para a mentalidade cristã na tradução: populus est coetus mnltitudinis, rerum quas diligit concordi ratione sociatus.

Poderá dizer-se que o povo português ama o corporativismo, como o vê e o sente, concordi ratione?...
Mas devo encerrar esta análise, para mim dolorosa por muitas razões e até por me revelar a mim próprio um desfasamento com o pensar de V. Exa que não tinha ainda apreendido como tão profundo.
Insisto em que tudo isto é para mim um problema de Igreja, um problema "profissional" de bispo. Reconheço sem dúvida que se torna um tremendo problema da Nação; mas só depois de problema de Igreja.

E isto sob qualquer ângulo que encare o assunto. Assim, por exemplo e ad abundantiam, é evidente que o problema total de hoje é o do colectivismo, isto é o da relação Pessoa-Estado. Ninguém quererá ignorar que nesta relação transcendente está profundamente empenhada a doutrina e a vida da Igreja. No caso português, neste caso único na nossa história, a extraordinária personalidade de V. Exa impunha um esforço igualmente extraordinário para que esse personalismo se não transformasse em estatismo.

Não sei se tal esforço existiu; todos sentem que não foi eficaz. Talvez em Portugal ninguém tenha chegado a expressar aquele conceito que se formulou no país vizinho de que o Estado é o exorcismo da Nação. (Mas acontece até, por vezes, que certas enormidades é melhor expressarem-se, para se efectuar a necessária catarse, e deixarem de ficar a dominar o subconsciente.) Acontece porém que, numa continuidade e potencialização da velha democracia, o Estado, que nem sempre estará bastante presente naquilo que é propriamente seu, está sumamente presente naquilo que só supletivamente é seu, como na educação e na assistência, para não falar na economia e na sociologia. E isto, enquanto relação transcendente personalismo-estatismo, é um problema de Igreja. A Igreja não pode pensar nem viver com isto.

Problema de Igreja é igualmente o corporativismo. A Igreja "comprometeu-se", não com o Estado corporativo, mas com a ordem corporativa da sociedade. E bem sabemos, entre nós, como do respectivo Ministério se quer "comprometer" a Igreja na sua doutrinação e acção. Ora o caso português, sob este aspecto, parece-me ser esquematicamente o seguinte: Em 26, o sindicalismo português caminhava precipitadamente para o bolchevismo. O próprio Bento Gonçalves regista que já o Poder se aliava às massas, por ele comandadas, contra a polícia e o exército. Por isso a Nação se levantou num legítimo e pacífico movimento de salvação pública. Havia porém que libertar o operariado da condução e do despotismo comunista (e isto em pleno direito "democrático" porque aquela condução era dolo duma parte e engano da outra), facultar-lhe a máxima promoção humana e permitir o progresso dum autêntico, são e autodirigido sindicalismo, em ordem à integração social progressiva e voluntária. Para isso muitas coisas eram precisas, mas sobretudo que a Administração assumisse as responsabilidades e mesmo o odioso que lhe competem e deixasse à organização profissional a autodeterminação que lhe é essencial e a simpatia benéfica que lhe era indispensável na infância. Em vez disso achou-se melhor, através da organização da economia e do trabalho, "estabelecer uma vida colectiva de que resulte poderio para o Estado..", e para isso, naturalmente, privar a organização profissional operária de qualquer meio efectivo "de conseguir novas condições de trabalho ou quaisquer outros benefícios". Evidentemente, porque benéfico só o Estado e a Administração; a organização profissional não podia ser mais que (temos de empregar a palavra) um acamo... Isto é a lei; nem sequer falemos da prática e ainda menos dos desvios, que se tornam lógicos.

Seria também longo analisarmos uma arquitectura legal e organizativa que, oscilando entre o geometrismo e o barroquismo, é sobretudo errada como projecto e lançamento: armação patronal dum lado, armação operária do outro; e ao meio sempre o Estado, como coxim único amortecedor de choques, que parecem considerar-se inevitáveis e insanáveis, a não ser por benefício do Estado e talvez até que este convença uns e outros da sua "solidariedade permanente"...

Temos de ser francos, talvez brutais: o corporativismo português, como outros já passados, foi realmente um meio de espoliar os operários do direito natural de associação, de que o liberalismo, em 91, os privara, e que tinham reconquistado penosa e sangrentamente. E a isto se chama corporativismo; e com isto se quer comprometer e, na verdade, se comprometeu, inútil mas terrivelmente, a Santa Igreja.
Isto é pois um problema de Igreja...
Podia continuar, e mostrar como tudo é ainda um problema de Igreja na alternativa que se quer impor — ou isto ou o comunismo (mas não há uma doutrina social cristã?) — na dialéctica entre economismo de base financista e humanismo, ao serviço daquele, na posição de certo nacionalismo, etc, etc.

Apontando porém ao fim deste longo e enfadonho mas necessário arrazoado, tenho ainda de frisar um novo aspecto deste problema de Igreja, aspecto universal e omnipresente, que a muitos infelizmente parecerá uma questão adiáfora e impertinente.
Disse V. Exª que com a liberdade nada se pode fazer e que a docilidade do povo português representa um grave perigo para a estabilidade política e social; dissera antes que de algum modo a essência do regime estava nos seus serviços e prestações sociais.

Eu não quereria abusar do sentido das palavras, mesmo postas por forma tão absoluta e categórica. Como porém nas primeiras se parece ao menos afastar a liberdade de formação da opinião pública — talvez isso esteja já no preceito constitucional de impedir a "perversão da opinião pública na sua função de força social", mas então tem de pôr-se em causa a Constituição — e a possibilidade de chamar o povo à consciência da sua idoneidade para a condução da coisa comum, e como nas segundas se parece reduzir a vida política à Administração, tendo em conta (e creio não ser injusto) que esta é toda ou quase toda a ideologia prática da Situação, não pode deixar de concluir-se que o homem não tem que pensar em realizar-se politicamente, que o cidadão português não precisa de ter dimensão política. Ora a Igreja não pode impor esta doutrina a ninguém, decerto nunca a seus filhos, a quem não deseja uma imminutio capitis.
Bem sei que está aí a União Nacional "aberta a toda a gente". Mas, sem pensar em quaisquer desvios ou na degenerescência em partido, temos de admitir o dilema: ou bem que a U.N. não tem qualquer doutrina e então temos exactamente aquilo que dizíamos, a negação da dimensão política; ou bem que tem uma doutrina e nesse caso, ou é dogmática e estamos no mesmo, ou é livre e caímos na sua negação, na desunião.

Ponhamos a questão em concreto e precisamente no ponto que mais proximamente interessa à Igreja. Parece que para se ser bom filiado da U.N. o menos que se pode pedir é que se seja nacionalista. Mas o nacionalismo, desde a mensagem pontifícia do Natal de 54, é no vocabulário católico um termo mais que suspeito. Poderá decerto juntar-se-lhe um adjectivo. Mas se se pretende que obriguemos ou animemos os católicos a serem nacionalistas, mesmo com adjectivo, que autoridade nos fica para os impedirmos de serem progressistas, com o adjectivo que escolherem?... Quereremos ou poderemos impor aos católicos conscientes, e sobretudo à juventude, que quer ser intelectualmente respeitada, o círculo nacional das supremas designações políticas, cujo vício apenas a personalidade de V. Exa pôde esbater?!

Afinal esta negação da livre e honesta actividade política é também uma política; apenas, má política. O problema enorme, histórico e decisivo é este: pode ou não pode o católico ter dimensão política? Deve ou não deve o católico ter dimensão política?

Este é o problema da Igreja portuguesa, hic et nunc o grande e como que único problema da Nação, mas por via de consequência: perdida a Igreja na alma do povo estará a Nação. Como bispo, sinto a tremenda responsabilidade de amanhã, no meio da eventual catástrofe — não cultivo "a visão catastrófica dos acontecimentos" mas não posso também aceitar a táctica da avestruz, que infelizmente vejo difundida de mais — os católicos nos poderem dizer que a culpa foi nossa, por os termos inibido da formação e acção políticas.

Em consequência e à luz de tudo quanto escrevi, condensarei aquilo que desejaria perguntar a V. Exa em quatro pontos:

1°- Tem o Estado qualquer objecção a que a Igreja ensine livremente e por todos os meios, principalmente através das organizações e serviços da Acção Católica e da Imprensa, a sua doutrina social?

2º- Tem o Estado qualquer objecção a que a Igreja autorize, aconselhe e estimule os católicos a que façam a sua formação cívico-política, de forma a tomarem plena consciência dos problemas da comunidade portuguesa, na concreta conjuntura presente, e estarem aptos a assumir as responsabilidades que lhes podem e devem caber, como cidadãos católicos?

3º- Tem o Estado qualquer objecção a que os católicos definam, publiquem e propaguem o seu programa ou programas, politicamente situados, em concreto hic et nunc, o que evidentemente não pode ir sem o despertar de esperanças de mutações ousadas e substanciais e do seu clima emocional?

4º- Tem o Estado qualquer objecção a que os católicos, se assim o entenderem e quando o entenderem, iniciem um mínimo de organização e acção políticas, a fim de estarem aptos, nas próximas eleições legislativas ou quando o julgarem oportuno, a concorrer ao sufrágio, com programa definido e com os candidatos que preferirem?

— Desejo precisar que, ao formular estas perguntas, não quero sugerir qualquer benevolência ou favor para com a actividade cívico-política dos católicos; antes, pelo contrário, penso que se não forem capazes de aguentar o desfavor e a animosidade do Poder, pouco podem merecer o respeito e a liberdade. Apenas sugiro e peço, mas isso com toda a nitidez e firmeza, o respeito, a liberdade e a não-discriminação devidos ao cidadão honesto em qualquer sociedade civil. Desejo ainda precisar que esta minha atitude e diligências, que me resolvi a desenvolver como servidor da Igreja, são no entanto da minha única e exclusiva responsabilidade.

Por isso e para isso, a fim de que o Episcopado português seja inteiramente livre de aceitar ou repudiar estes actos e quaisquer consequências, resolvi não ouvir qualquer dos Bispos responsáveis pelas nossas Dioceses, a quem apenas post factum comunicarei o caso. Nem sequer falei a S. Eminência o Sr. Cardeal Patriarca, pela mesma razão e por me parecer que a S. Eminência pertence a última palavra, que moralmente compromete a Igreja portuguesa, e normalmente não a primeira, que responde ao estado de consciência e às circunstâncias de cada um, na sua esfera de responsabilidade.

Finalmente e pela sua actualidade, permito-me juntar cópia de alguns documentos relativos aos Centros Paroquiais de Assistência e Formação Social que deixam ao menos ver como os erros aqui denunciados não ficam no domínio do abstracto.

Nestes termos e pedindo me releve a recta intenção em tudo quanto possa ter magoado V. Exa e reiterando a expressão da minha muita consideração pessoal, fico aguardando ordens de V.Exa e subscrevo-me

De V.Exa Venerando e muito obrigado

a) António, Bispo do Porto