13 janeiro 2011

Virgínia Moura, a Passionária Portuguesa

Virgínia Moura nasceu em S. Martinho do Conde, Guimarães, a 19 de Julho de 1915. Era filha de mãe solteira, estigma que lhe condicionou a vida e a ajudou a forjar o seu precoce carácter revolucionário.
Com apenas 15 anos de idade participou numa greve estudantil, na Póvoa de Varzim, em protesto contra o assassinato, pela polícia, de um jovem estudante chamado Branco.
Três anos depois deste episódio ligou-se ao Partido Comunista Português, ao integrar o Socorro Vermelho (uma organização de apoio aos presos políticos portugueses e espanhóis), e aí conheceu o companheiro de toda a vida, António Lobão Vital, então estudante de Arquitectura. Viveram juntos durante 42 anos, até à morte de Lobão Vital.
Virgínia Moura foi a primeira mulher em Portugal a licenciar-se em Engenharia Civil, curso que frequentou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.
 No entanto, nunca alcançou um emprego público. As autoridades não lhe perdoaram o facto de ela ser uma reconhecida activista antifascista. Para além de Engenharia cursou, também, Matemática, em Coimbra, e Letras, no Porto.
Nesta cidade, durante os anos 40 e 50, desenvolveu grande actividade cultural. Sob o pseudónimo de Maria Selma colaborou em diversas publicações periódicas, promoveu a Revista Sol Nascente e organizou conferências que contaram com a participação de intelectuais como Teixeira de Pascoaes, Maria Lamas e Maria Isabel Aboim Inglês.

Virginia Moura, José Morgado, Ruy Luis Gomes

Antes do 25 de Abril de 1974 participou activamente em movimentos pró-democráticos. Destacou-se a sua participação e empenhamento no comício de apoio à candidatura de Norton de Matos à presidência da República, na Fonte da Moura, em 1949; foi julgada por "traição à Pátria", em 1951, por ter assinado uma declaração que exigia a Salazar negociações com o governo indiano relativamente a Goa, Damão e Diu; esteve ligada à candidatura de Humberto Delgado, às movimentações populares estudantis de 1962 e aos congressos da oposição democrática de Aveiro (1969 e 1973); foi presa dezasseis vezes pela PIDE (a primeira das quais em 1949), nove vezes processada, três vezes condenada e foi repetidamente agredida pela polícia em actos públicos. Depois da Revolução de 1974 manteve a sua actividade política como militante do PCP.
No decurso do seu activismo político e cívico integrou, também, o Movimento da Unidade Antifascista, o Movimento de Unidade Democrática Juvenil, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e o Movimento Nacional Democrático.
Com o 25 de Abril veio o reconhecimento público da sua acção cívica. Foi agraciada com a Ordem da Liberdade e, ainda, com a Medalha de Honra da Câmara Municipal do Porto durante a presidência de Fernando Cabral e do Movimento Democrático de Mulheres.
Em 1998, com 82 anos de idade, visitou Cuba pela primeira e última vez. Pouco depois, a 19 de Abril, faleceu no Porto.
Ao funeral da Passionária Portuguesa, como era conhecida entre os opositores de Salazar e de Marcelo Caetano, comparecerem milhares de pessoas, entre as quais se podem destacar o então Secretário-geral do Partido Comunista Português, Carlos Carvalhas, e o dirigente da Intervenção Democrática, Raul de Castro, seu amigo de longa data.

Presa dezasseis vezes pela PIDE, nove vezes processada e três vezes condenada.
Agredida inúmeras vezes pela polícia política durante actos públicos de afirmação democrática, a vida de Virgínia Moura foi um constante confronto com o fascismo.
Esteve nos combates do MUNAF, do MUD e do Movimento Nacional Democrático; nas batalhas políticas em torno das "presidenciais" com as candidaturas de Norton de Matos, de Ruy Luís Gomes, de Humberto Delgado; nos congressos da oposição democrática e nas campanhas políticas de massas desenvolvidas em torno das farsas eleitorais para a chamada Assembleia Nacional, em 1969 e 1973; nas pequenas e grandes lutas pela paz, pela solidariedade com os presos políticos e contra a repressão, pela melhoria das condições de vida do povo, pela libertação dos povos colonizados, pela igualdade e afirmação dos direitos das mulheres e da sua participação na vida política, pela criação das condições que conduziram ao derrube do fascismo.

Era visível a sua alegria nas primeiras horas da libertação a seguir ao 25 de Abril, como também a sua presença e contribuição apaixonada nos combates pela defesa e construção da democracia, procurando sempre intervir até ao último sopro de vida.
Por tudo isto e pelo seu modo espontâneo de se dar aos outros, o seu modo de compreender os outros, a sua modéstia feita de humanidade, de sabedoria de convicções, a sua afabilidade que nela tão bem se harmonizava com a rijeza do granito do Porto, Virgínia, a "Senhora Engenheira" como por tantos era carinhosamente tratada, foi uma figura querida, uma filha do povo que, por onde passava, deixava um rasto de acenos, de abraços, de palavras fraternas de um sem número de amigos.
Comunista, revolucionária, cidadã esclarecida do nosso tempo que identificou a sua vida com a luta do povo e com as grandes causas da democracia, lega-nos o exemplo de quem soube permanecer fiel às ideias da sua juventude e de quem soube identificar a sua vida com as grandes causas da emancipação social e política dos trabalhadores e da construção de uma democracia avançada.

3 comentários:

Anónimo disse...

Tive a honra de conhecer a Senhora Engenheira Virgínia de Moura, quando era estudante na Faculdade de Economia da U.P., então situada na praça dos leões.
Vulto imenso, pessoa de grande coragem e notabilidade e de um trato simples e franco, como só os grandes homens e mulheres sabem ser, pagou caro os seus ideais ao ser-lhe negado qualquer emprego público.
Aqui na minha Figueira da Foz existiu também uma grande Senhora a Dra. Christina Torres, perseguida pelos esbirros da pide e obrigada a andanças várias pelo país à qual presto a minha modesta homenagem neste espaço de convívio.

Anónimo disse...

...nascida em São Martinho de Sande...

Filipe disse...

Caro amigo, repare que no documento apresentado está:
...São Martinho do Conde...