14 janeiro 2011

Vitor Alves - 09 Jan 2011

Na morte de Vítor Alves

Estava em Viseu , quando um SMS me avisou: "Morreu o Vítor Alves". Infelizmente era uma notícia daquelas que se esperam - mas que, no fundo, nunca se esperam. Porque todos os nossos amigos são eternos e, quando descobrimos que não são, temos muita dificuldade em acreditar. Vítor Alves pertencia àquele grupo de homens a quem devemos viver hoje em liberdade e em democracia. Para as gerações mais novas, isto parece um dado tão adquirido que nem lhes passa pela cabeça que alguma vez pudesse ter sido doutra maneira.
Mas foi. Durante muitos anos.
Até que um dia estes homens decidiram arriscar tudo - vida, liberdade, carreira, saúde, família - em nome de um sonho que, com desvios e loucuras e erros e recuos, ainda é o que hoje nos mantém vivos e actuantes.
Esta é uma dívida que nunca poderemos pagar - nem eles estavam à espera disso.
Mas é muito triste descobrir como as pessoas têm a memória curta.
Foi vergonhosa a maneira como a morte de Vítor Alves foi tratada nos meios de comunicação - já para não falar das muitas horas de um velório quase vazio, quando deveria ter estado SEMPRE, em todas as horas, cheio de gente.
Atirada a notícia para o rodapé dos telejornais - que se enchiam do assassínio de Carlos Castro em Nova Iorque, com direito a um rol de jornalistas em directo, e entrevistas a meio mundo.
Reduzida, num jornal dito de referência, no dia a seguir ao enterro, a uma pequena fotografia em que se via a parte de trás do carro funerário e dois homens a ajudar a colocar o retrato junto do caixão - enquanto páginas inteiras continuavam reservadas ao crime passional de Nova Iorque.
Mas Vítor Alves não se meteu em escândalos, não morreu num hotel de luxo em Nova Iorque, não alimentou crónicas cor-de-rosa, nem sequer pertencia ao jet-set.
Pecados por de mais suficientes para o atirar para o limbo dos que não merecem mais que uma breve evocação. Mas se calhar é aí que ele fica bem - ao lado dos que deram tudo pela pátria, e que a pátria, vergonhosamente, esqueceu.

(c/ a devida vénia, à autora Alice Vieira e ao JN)

3 comentários:

Juvenal Amado disse...

Talvez a maior homenagem que faça aos militares de Abril é esta mesma.

Entre tanta gente agraciada sem razão, o esquecimento será um prémio para quem tudo arriscou e serviu sem se servir, o que é coisa rara nos tempos que correm.
Falo dos militares e não só.
Falo dos homens e mulheres, que arriscaram a vida em prol de um sonho.
Dedicaram as suas vidas às causas sem esperar pagamento.
Honrá-los sem exaltações patrioticas que cheiram a falso, é dignificá-los.

Um abraço

Hélder Valério disse...

Estou completamente de acordo com o comentário de Juvenal.
Subscrevo-o na totalidade, na forma e no conteúdo.
Acho que é exactamente assim que se deve apreciar esta situação.

Abraço

JSP disse...

Caros Juvenal e Hélder: Já somos 3!...
E não somos uma multidão porque muitos milhares não podem navegar por este blogue.
Ainda não beneficiam das medidas do Campeão da Acção Social, o Sr. Aníbal de Belém!